Crônica

"A crônica situa-se entre o jornalismo e a literatura. O cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia. A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor... 

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária..."

"A origem da palavra crônica é grega, vem de chronos (tempo), é por isso que uma das características desse tipo de texto é o caráter contemporâneo."

Por que "Crônicas de Segunda"?

Porque publicarei os textos na maior parte das vezes, às segunda-feiras. Além disso, o nome "crônicas de segunda"  combina com  fato de que eu não domino muito bem o gênero, não deixa de ser um honesto  trocadilho . E eu não resisto a um trocadilho!


1- Dor de Domingo

  Esse texto é uma grande brincadeira sobre " a cara " que cada dia da semana tem.

 Faz tempo que penso sobre isso, e  acho que as pessoas de modo geral, sentem algo parecido. Já ouvi por exemplo, pessoas dizerem: "hoje é terça, mas está com cara de domingo".

 A vida em sociedade faz isso, padroniza muita coisa e estabelece certas convenções. É claro que isso tudo é muito relativo, depende muito de onde vivemos, do estilo de vida que levamos, enfim...

 Confesso que usei a desculpa de "criticar" essas convenções, mas o verdadeiro motivo de escrever o texto foi porque era domingo,  eu estava me sentindo muito só. O "peso" de ser domingo aumentou a intensidade da minha dor, precisei escrever.

 Esta seção do blog é totalmente subjetiva bem diferente da seção com os contos que são ficcionais, obra da minha imaginação. Aqui sou eu, aqui é meu coração.


Segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Por Gisele Lance 

Segunda feira como sugere o nome, é o segundo dia da semana, mas pra mim sempre foi o primeiro. Minha vida fora da barriga da minha mãe começou numa segunda, às 02h05min da tarde.

Muita gente inclusive eu, sofre da "síndrome do agora vai ser diferente" que se manifesta  às segundas-feiras.

A gente até tenta fazer planos, mudar o rumo das coisas numa quinta, mas acaba fechando um acordo de deixar pra segunda, afinal de contas, a segunda serve pra isso mesmo. Que "louco" começa uma dieta numa sexta? Ou para de beber num sábado?

Se a terça-feira fosse uma pessoa, ela seria um senhor alto, sisudo, de bigode, terno e gravata bem alinhados. Não nos permitimos vacilar na terça, poxa, ainda é terça-feira, os projetos da segunda estão apenas no início, é na terça que damos ritmo, corpo à coisa...

Agora, se a quarta-feira fosse uma pessoa, ela seria de humanas, teria crise de identidade, faria análise e tomaria sertralina. Ela não é nem o ajuizado começo da semana, nem é o aclamado fim de semana. Na quarta -feira, ainda não desistimos dos projetos, mas já diminuímos o entusiasmo. Quarta-feira não é uma pessoa, mas tem pessoas "quarta-feira" por aí...

Quinta-feira é o dia do cansaço, são frases típicas de uma quinta à noite:

_ Que semana puxada!

_ Estou exausta!

Falamos com a boca cheia, nos sentimos justificados afinal, lá se foram quatro dias de trabalho, atividades, responsabilidades, trânsito, stress...

Sexta feira é uma dia mágico, em vez de estarmos mais cansados do que na quinta, surpreendentemente acordamos renovados, só por saber que é sexta, e que o fim de semana está às portas.
 O bom humor toma conta e damos aquele gás pra acabar depressa tudo o que tem pra acabar. O que não der,  já fica agendado pra segunda-feira.

Sábado é dia de festa, distração, diversão... Você tem que ser feliz num sábado e você têm que sair de casa no sábado! Alguém convencionou isso, está lá no "Código Supremo de Como Viver Cada Dia da Semana", pode consultar, artigo 17 parágrafo 9. Digo uma coisa amigo, se você estiver triste, e esse dia for um sábado, e se, além disso, você ficar em casa, sua tristeza será automaticamente triplicada.

Domingo é um dia em que tenho a sensação que alguém foi lá no painel de controle do planeta, diminuiu a velocidade, abaixou o som e ligou a brisa fresca. Domingo é dia de ouvir João Gilberto, Cícero...
 Domingo é dia de ficar a tarde toda esparramado no sofá, é dia de andar de só de meia pela casa. Domingo é dia cafuné. Domingo é dia de Neruda ao pé do ouvido. Domingo é dia de respirar fundo e olhar pro mar, todo mundo deveria ter um mar pra ficar olhando, pelo menos no domingo.

 Domingo é dia de falar com os olhos e andar de mãos dadas. Domingo é aquele dia em que o abraço fica mais terno, mas a ausência do abraço fica mais pungente. No domingo o coração fica nas mãos, e a dor escancaradamente exposta num texto como esse.

Hoje é domingo, estou só, e só me resta escrever...


2- Eu ainda não sei nadar

 Este texto é uma homenagem a meus amigos, embora eu tenha contado nas linhas, um pouco da história de dois deles, nas entrelinhas, estão os outros, e fico muito feliz de usar esse "pluralzão"; OUTROS. Se tem uma coisa que fiz bem nessa vida, é essa: amigos! Em quantidade e qualidade!

Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Por Gisele Lance

Não consigo lembrar o ano, acho que isso faz sentido porque me encontrava perdida na época. Divórcio dos pais, idade suficiente pra entender como aquilo tudo doía, idade insuficiente pra entender por que  aquilo tudo acontecia, como aquilo tudo acontecia.

Não topei com Ela na rua, nem na escola, tampouco numa festa. Nossa amizade foi coisa arranjada, tem casamento arranjado, pois bem, tem amizade arranjada também. Foi um "salvamento" planejado.
Realmente, Ela me salvou daquele rio em que estava me afogando. Engraçado usar essa metáfora porque eu não sei nadar, e Ela nada super bem!

Lembro-me muito bem o ano, era 2004, abril de 2004!
 Eu estava em casa quando Ele surgiu, foi assim quase que do nada; 16 anos e 300 km de distância nos separaram, mas quando enfim, fomos apresentados, nos reconhecemos imediatamente.

Viramos adultos juntos, definindo os contornos de nossas personalidades, construindo, desabando, reconstruindo... Fomos passando pela vida juntos e a vida foi passando por nós...

Quanto de mim há em meus amigos? Quanto dos meus amigos há em mim? Eu não sei resolver essa equação...

O ano era 2007, Ela e Ele, dois dos meus melhores amigos se casaram!
Aquela união permanente foi uma ponte construída que nos liga até hoje. Temos nossa passarela bem solidificada e protegida e andamos sempre por ela (às vezes corremos); pra matar a saudade, pra rir juntos, pra chorar juntos, pra comemorar juntos, pra viajar juntos, pra pensar juntos, pra fazer "tudo" ou "nada" juntos.

Em 2008 eles tiveram um filhinho, deram-lhe o mesmo nome do nosso "Poetinha" que teve a felicidade de certa vez declarar: "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". Com a chegada de Vinícius, aprendi um novo tipo de amor; amar o filho da minha amiga com meu amigo!

Bem, eu ainda não sei nadar, mas o rio segue irrefreável, implacável na sua rota de desaguar no mar. É lá no leito do rio que a vida acontece e não nas margens.
Há, portanto que se jogar rio a dentro, tentar dar braçadas, tentar se apegar a um objeto flutuante, tentar a qualquer custo se manter na superfície e respirar, ainda que não se saiba nadar.

Sigo o curso do rio com uma certeza e com uma esperança em mente:

A certeza que sempre terei uma mão me impedindo de afundar e a esperança de encontrar pelo caminho um veleiro, onde eu possa enfim marejar o cansaço dessa viagem, aproveitar o céu azul e a brisa úmida.

 3- Bilhetinho


 Eu não pretendia escrever aqui nesta seção hoje. "Bilhetinho" saiu de atrevido. Ele pulou a etapa da concepção e já nasceu. Pois bem, aqui está este filho "seco, mirrado, caprichoso e cheio de pensamentos vários".

Segunda-feira, 01 de outubro de 2018

Por Gisele Lance

Foi celacanto na minha infância e tubarão branco na minha adolescência. Ela não combina nem um pouco com infância. Condiz um pouco mais com a adolescência, porém, se adequa mesmo com a velhice.

Os anos correram e suas aparições ficaram cada vez mais frequentes... Chegou a um ponto em que ela se acomodou no quartinho de visitas, meio de improviso a princípio, mas foi ficando...

O tempo continuou a passar e certo dia, quando abri o quartinho, quase caí pra trás, tamanho o susto que levei. Estava todo decorado e cheio dos pertences dela. Não era mais um quarto de hóspedes, era o quarto dela!

Eu não abri as portas do restante da casa, mas também não consegui expulsá-la, eu bem que tentei, mas era como se ela não ouvisse meus berros. Saber que ela morava comigo, me incomodava profundamente, então eu procurei pelo menos, evitar os encontros.
 De manhã, saía antes que ela acordasse, não aparecia em casa pro almoço pra não ter que ver a cara dela. O cair da tarde e os fins de semana eram mais complicados, por mais que eu quisesse evitar os encontros, falhava muitas vezes.
 Pelo menos uma vez por mês, os nossos encontros viravam uma longa reunião, ela convidava suas amigas inseparáveis e quando percebia, lá estava eu, no meio delas totalmente rendida.

 Ela foi tomando cada vez mais espaço dentro da casa, deixando cada cômodo com sua marca. Passou a dormir cada vez mais tarde e acordar cada vez mais cedo, o que gerava mais encontros, por mais que eu os quisesse evitar...

 Algumas vezes a trancafiei dentro do quarto por dias. Ai como era bom andar pela casa livremente! Mas ela escapava furiosa, e a coisa toda ficava pior...

A verdade é que ela nunca mais, foi embora,. Às vezes ela até se ausenta por um período, porém, sua volta é certa e mordaz.

Acho impossível o desvencilhamento. Mas pode ser que esse seja um pensamento corrompido por ela. Ultimamente já não sei onde eu acabo e onde ela começa...

 Não houve complacência da minha parte, que fique bem claro. Relutei, ao meu modo, (que talvez a tenha atraído pra mais perto ainda) mas relutei.

Quem é ela?

"O meu lábio não diz. O meu gesto não faz"

Deixo então um bilhetinho em cima da cama dela com as seguintes palavras do poeta:

"... por favor, vai embora. A minha alma que chora está vendo o meu fim. Fez do meu coração a sua moradia. Já é demais o meu penar. Quero voltar aquela vida de alegria, quero de novo cantar"

4- Dois Mundos

 Este texto estava pronto em mim, ele só estava todo desalinhado, de modo que demorou um pouco mais pra sair, mas aí está, mais uma "crônica de segunda", dessa vez, postada numa quinta.

Quinta-feira, 11 de outubro de 2018 

Por Gisele Lance

Dia desses vi na internet uma foto em que estavam no mesmo restaurante, sentadas na sequência três duplas de senhoras, elas tinham características físicas muito parecidas e cada dupla se vestia praticamente igual. Às vezes dá um bug na Matrix e coisas bizarras acontecem... 

 Outro dia vi uma academia de ginástica em que havia escadas para chegar à porta de acesso. Escadas rolantes! O mundo é irônico. 

 O futebol também está repleto de ironias. 1950 Brasil x Uruguai, não me deixam mentir. Um lugar com mais de 200 mil pessoas e um silêncio ensurdecedor.

 E as premiações do cinema? Como esquecer o Oscar de 1999 Fernanda Montenegro e Gwyneth Paltrow? Mas nem sempre a injustiça é resultado de uma decisão de um grupo de pessoas com critérios estranhos.

 Às vezes a injustiça é fruto do acaso. De todos os seres humanos do planeta, justamente Ludwig van Beethoven tinha que ter uma doença nos ouvidos?

Ultimamente sinto como se tivesse colocado uma cadeira do lado de fora da Terra, no quintal do Planeta. Estou sentada nessa cadeira observando à certa distância essas coisas loucas que acontecem. Me pego pensando em como o mundo é bizarro, irônico, injusto e cheio de dor.

 Tenho olhado também pra outro mundo... O mundo de dentro, o mundo que sou EU.

 Curiosamente, constato que tal qual lá fora, aqui dentro é bizarro, irônico, injusto e cheio de dor. 

 Confesso que é difícil enxergar outras coisas quando a dor é imensa e toma tanto espaço, todo o espaço... Na procura de algo que não seja dor, olho pra cima, pra baixo, dos lados; miro nas frestas, fendas e pequenas fissuras... 

 Sei que o amor é gigante em mim, maior que o medo, maior que a culpa, maior até que a dor, ele só 'caiu doente, doente'... 

 Se ao menos eu pudesse encontrar esperança, aí então teria certeza que a dor vai minguar ou se afastar até ficar ou parecer pequenininha. Sem a dor ocupando tanto espaço, é certo que o amor voltaria a crescer, florescer e dar fruto. É certo que sim, é certo que...

Se ao menos eu pudesse.


_ "se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira" _ Renato Russo

5- Saudade do "Vô"

 Lembrei-me de uma história curiosa, bateu um sentimento forte de saudade, ponderei um pouco sobre a vida; assim surgiu o texto abaixo. 

Domingo, 28 de outubro de 2018

Por Gisele Lance

Reza a lenda que há muito tempo atrás, num território rural qualquer das Minas Gerais, existiu uma família composta de três pessoas, a saber, o marido, a esposa e Horácio. Horácio era filho do casal, bebê ainda de colo.

Logo pela manhã a esposa acordava, preparava o café e dava início aos trabalhos domésticos e aos cuidados da criança. O marido acordava bem depois, tomava seu café lentamente. Após um bom tempo ele dizia:

_ "Muié", eu vou ficar aqui segurando o Horácio enquanto "cê" lava "as vazia" do café e arruma a cozinha, depois eu vou "trabaiá"...

A esposa lavava as louças, arrumava a cozinha, deixava tudo brilhando, enquanto o marido segurava Horácio...

_ "Muié", já "tá" quase na hora começar a fazer o "armoço", faz assim, vai lavando o "arroiz", picando o frango, enquanto isso eu fico aqui segurando o Horácio...

A esposa preparava, cozinhava, colocava o almoço à mesa, eles almoçavam. Pois bem, lá se ia metade do dia. Pouco depois o marido dizia:

_ Muié, passa um "cafezim", enquanto isso eu fico segurando o Horácio...

O marido novamente tomava o café sossegadamente... Em algum momento da tarde, dizia ele:

_ Já "tá" quase na hora da merenda da tarde. Eu vou ficar segurando o Horácio enquanto "cê" faz uma massa; broa ou pão de queijo?...

Pois bem, a tarde caía, logo seria hora do jantar, o marido iria segurar o Horácio como fizera o dia todo em vez de ir trabalhar.

Quem nunca passou o dia "segurando o Horácio"? Quem nunca?...

 Dia desses aconteceu comigo, tinha tudo pra me sentir frustrada, afinal sou dessas pessoas que fazem lista de manhã com vários itens pra cumprir no decorrer do dia. (Se tem uma coisa eu que persigo é a  produtividade.) No entanto, a frustração não veio, o que veio foi a lembrança do meu avô, que contava essa anedota do Horácio. O que veio foi a saudade...

 Meu avô era um homem cheio de histórias; algumas com enredos fabulosos, mágicos, outras pendiam mais pro lado cômico, pitoresco, como essa do Horácio.

 Eu tive a felicidade de ter uma infância regada à essas histórias, a maioria das quais já nem me lembro mais, infelizmente...

O que não esqueci foi da sensação que elas me causavam; sensação de entrar num outro mundo, sensação de que minha mente estava se expandindo, sensação sobretudo de aconchego. Sim, porque acredito que tanto a arte como o contato com os avós podem proporcionar aconchego de uma forma especial. E ali diante do meu avô, ouvindo e imaginando suas histórias fantásticas eu tinha as duas coisas.

 Tive a felicidade de ter uma infância "grudada" no meu avô... Às vezes ouvíamos o rádio, às vezes andávamos de bicicleta (até os tombos eram divertidos), às vezes ele trançava meus cabelos, às vezes eu simplesmente brincava na sua sala enquanto ele lia... Eu o amava, e ele passou a vida inteira me adorando.
Um fato engraçado, mas que ilustra bem o orgulho que ele tinha de mim, é que ele me "apresentava" vez após vez para minhas próprias amigas dizendo:

_ Essa aqui é minha neta!

 Hoje, ao puxar pela memória sinto que cada vez que ele olhava pra mim, seu olhar imprimia amor, reconhecimento e aprovação. Três coisas fundamentais para o ser humano, compactadas e irradiadas num olhar! Isso teve uma baita importância na minha vida...

 Numa onda meio Sartre, tenho pensado muito na importância do "outro".

Acho que o outro confirma nossa existência, nossa humanidade, o outro exerce um papel na construção de quem somos e o outro testifica seu valor perante o mundo.

Partindo desse ponto de vista, "os outros" são pilares na nossa estrutura, vigas fortes, que nos mantém em pé por assim dizer. Quando perdemos alguns desses pilares, e perdemos vários durante a vida, ocorre o óbvio; um abalo nas estruturas.
 De repente, você não tem mais certeza do seu valor perante o mundo; de repente, você parece se descaracterizar; de repente, você se quer sabe se existe.

Hoje veio a saudade do meu avô, veio, e veio forte...

6- Crônica de Ubatuba

Viagens para a praia me dão vontade escrever...

Segunda, 26 de fevereiro de 2019

Gosto de poemas que têm a palavra "poema", assim como de livros que tenham a palavra "livro" e de filmes que tenham a palavra "filme" no título. Gosto dessa coisa de metalinguagem...

Acho que por isso me simpatizei com o título "Crônica de Ubatuba" um título assim "diz a que veio" e gosto de coisa e de gente que "diz a que veio".

Não se trata de certezas absolutas e definitivas; o inconstante e o incerto por vezes me atraem, há beleza na dualidade, e as entrelinhas são tão fascinantes... 

 O que gosto  mesmo, é da sinceridade crua e sem pudor; gosto de gente que "diz a que veio" porque sabe "a que veio", e gosto de gente que não tem a mínima ideia "a que veio", porém a certeza dessa dúvida, é de algum modo,  é "dizer a que veio".

 Eu também tenho um gosto por palavras indígenas, as acho tão sonoras e consonantes, deve ser devido ao número elevado de vogais...

Tudo isso pra explicar o título dessa crônica. Não leve a mal minha falta de concisão, ou essa necessidade patética de ficar falando do que gosto ou deixo de gostar...

 Um instante infinito de prazer foi olhar as matas fechadas de Ubatuba, montanhas de um lado, montanhas do outro lado, o mar na frente e depois do mar? Mais montanhas, matas e mar.

Ubatuba me deu mais que paisagens belas, me deu a honra de conhecer sua gente, gente de lá e gente de todo canto do mundo que lá se abriga.
 O que senti, foi que a cidade não hesita, não vacila; ainda que as ondas balancem e os barcos flutuem. Ubatuba me deu aquele "tapa na cara" que eu estava precisando.

 Ubatuba me propôs e eu aceitei. Pensei muito, olhei pra fora e pra dentro, olhei de dentro pra fora e de fora pra dentro. Tentei não chorar, me deixei prender o choro.

 Chorei e me deixei chorar. Desaguar ali toda mágoa, toda dor, toda culpa, me pareceu muito clichê, porém coerente. Era devolver ao mar o sal que lhe é de direito. O mar era tão grande que minha dor pareceu pequena. Essa matemática da dor me "pôs no lugar".

 Foi um "deixemos de coisa e cuidemos da vida, pois se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta... sem ter visto a vida". Ubatuba me 'pôs no devido lugar'

 Eu perdi o medo do mar embora não tenha perdido o respeito. Deixei-me atingir pelas ondas do "Tenório", submergi, afundei, afoguei e dei risada disso. Senti o corpo solto na agua, e ali nada mais existia, nem a respiração, apenas o barulho da água nos ouvidos que vez outra, ainda ouço.

 Clareza, compreensão, entendimento, percepção pra enfrentar a vida, encarar a vida, 'ir na valsa' com vida.

 Há muitos motivos pra gostar de viagens, mas quanto a mim, gosto de viagens porque jamais voltei de viagem alguma, me deixei lá naqueles lugares que visitei. O que volta das viagens é um outro eu, modificado por toda a substância do lugar.  

7- Quereres

 Este texto só existe porque às vezes a vida nos dá uma segunda chance. Poucas coisas são tão boas quanto segunda chance!

Quarta-feira, 1 de maio de 2019

Por Gisele Lance

Ela quer oxigênio, quer colo, quer peito e leite; quer acalento, quer mimo, quer laços de cetim, quer chão, quer coisas coloridas e barulhentas; quer cachorro, gato, pássaros, tartarugas, roedores ou peixes; quer rodas, quer asas, quer mais um pouco de cama (só mais cinco minutos); quer voz, quer som, quer letras, quer imagens, quer tudo isso junto num só objeto.

 Quer ouvidos atentos, quer abraços, quer beijos, quer clímax, quer papeis importantes e oficiais; quer anéis e alianças de metais preciosos; quer continuidade...
Vai querer sossego, dignidade, por fim vai querer alívio.

Em meio a tantos quereres, há muitos não quereres, há semi-quereres, e há pseudos-quereres. A moça se confunde quando a idade é pouca, a moça se confunde quando o medo é grande, a moça se confunde...

 Mas às vezes, só às vezes, a vida dá uma segunda chance pra moça; ela coloca cabeça no lugar e abraça a sorte. Agora ela sabe ao certo o que quer:

 Quer aquele que coloca nomes excêntricos nos cachorros, que passa o dia na Etna só pra olhar coisas que não comprará. Aquele que a faz rir o dia todo e no fim do dia a toca de leve na cintura pra guia-la pra dentro do metrô (a moça do interior não sabe andar de metrô). Ela quer aquele que toca bateria, não penteia o cabelo, usa meias estampadas, lê Karl Ove, decorou "Tabacaria", aquele que por vezes recita "Consolo na Praia", debaixo de uma cachoeira, ou numa fila pra comprar bilhete; aquele que não tem carteira nacional de habilitação, que tem um contrabaixo de um desconhecido em casa. A moça quer, e quer tudo; que é pra não desperdiçar nenhuma parte!

Quer aquele que sabe cantar música gaúcha, que acha que usar relógio quando de terno faz o maior sentido, que borrifa o perfume duas vezes, que toma café sem açúcar, que senta com as pernas cruzadas, a moça quer aquele que passou quase metade da vida ajudando pessoas. Quer, e quer devagar; que é pra aproveitar bem cada segundo!

 Quer aquele que dorme com os pés pra fora da cama, cantarola o dia todo, que sabe fazer silêncio, silêncio junto. Aquele que por vezes não dorme e quando dorme, demora pegar no sono; que é gentil, que fala com ela no imperativo, que tem o dom da barda e de atravessar ruas .
 A moça quer aquele que personifica coisas, que usa calça com bolso faca e óculos redondos, quer aquele que quando conta as aventuras com os amigos, derrama carinho, e que quando relembra sua primeira memória gravada, deixa escapar uma lágrima. Quer, e quer com urgência, que é pra não perder mais tempo!

 Quer aquele que conta histórias que parecem inventadas, que diz que se casaria fácil com o Amarante, que torce pro SPFC, que não está em nenhuma rede social do Zuckerberg. Aquele que gosta de assistir TV e deixar ela ligada pra fazer barulho, que entende muito de cinema e assiste todos os indicados ao Oscar. Aquele que não gosta do sabor da Coca-Cola e acha Fanta Uva o melhor refrigerante já inventado; ela quer aquele que já teve uma crônica publicada num jornal no Paraná. Quer, e quer bastante, porque seu desejo é imenso!

 Quer aquele que tem humor ácido, gosta de sorvete de morango, de fazer bolo de madrugada, que passa a manhã toda preparando nhoque como molho fresco pra um amigo. Quer aquele que já teve uma proposta de casamento bizarra, que lê de forma doce e charmosa.
Aquele que escreve frases nas paredes, que segura uma Makita como ninguém, que bebe muita água pela manhã e que sonha com uma esposa que lhe sirva a sobremesa. Quer, e quer hoje, porque hoje é presente e ele é o maior que ela poderia ganhar!

 Quer aquele que a faz sentir protegida e a mulher mais sortuda do mundo. Que a faz sentir que a vida, sem contrariar o poeta, é de fato "uma aventura errante", porém uma linda "aventura errante"!

A moça quer e quer pra sempre, que é pra nunca ter fim mesmo.

A moça passou a vida toda perdida, por fim se perdeu até de si... 

 Se encontrou a tempo, não que tenha encontrado o caminho de casa porque nunca tivera casa, mas construiu uma, colocou tudo no lugar e mudou-se pra dentro de si.

 Sua casa tem alpendre, quintal e endereço nobre: presente. Sabe como é, casa nova a gente quer curtir, pois bem, ela passou um tempo entre um cômodo e outro, observando uma mobília e outra; até que um dia resolveu colocar a cadeira do lado de fora e olhar a vida acontecendo... 

Mais um tempo, e a moça marcou de tomar um café com o moço, eles marcaram pra uma data, mas ela foi antes. Quando ela o viu, ele calçava All Star vermelho,  portava um Kindle nas mãos e sono no rosto. A ideia era tomar café e conversar, mas só segunda coisa aconteceu. 

Foi um reencontro embora os olhares deles nunca tivessem se cruzado antes. Foi um reencontro, embora ele tenha estado com ela o tempo todo, desde sempre.

Estava antes de estar, e era antes de ser!

 Daqui pra frente ela só quer seguir o caminho de mãos dadas com ele...

... que é pra nunca mais perdê-lo em se perder!

8- Em casa

Um domingo inteiro sozinha em casa, depois de completar 32 anos resultou neste texto.


Domingo, 08 de dezembro 2019

Por Gisele Lance

 Sempre tive dificuldade em viver "o agora". Passei anos usando o presente para planejar e esperar um futuro mágico, um futuro onde haveria saídas retas e fáceis para todas as entradas tortas e complicadas que me enfiei.
  Não houve saídas fáceis; não houve saídas, pelo menos eu não as via. A coisa foi ficando tipo um labirinto...
Então, recusei novamente aquele presente e passei a viver em outro tempo, dessa vez no passado. O passado é sempre brilhante nos filtros e edição da memória. "Nostalgia" parece nome de droga não é à toa...

_ Vou te receitar 20 ml de nostalgia por dia, tomar pela manhã, com o estômago cheio. Apenas durante 15 dias.

 Talvez tenha exagerado a dose e tenha vivido tempo demais, a felicidade da minha profunda tristeza...

Autossabotagem? Autossabotagem. Nessa matéria eu tenho mestrado e doutorado. Por outro lado, não vou aqui cuspir no prato que comi. A nostalgia é perigosa e não me deu grande consolo, mas me permitiu andar de cabeça erguida; expôs-me há certo perigo? Creio que sim, mas encontrei nela fôlego para continuar; e foi assim que prossegui, do jeito possível, do jeito que deu...

 Isso de viver um futuro e depois viver um passado, hoje, já é tudo passado...

 Aqui no presente, nos incríveis 2019, e digo "incrível", não no sentido de ser "extraordinário", mas no sentido literal da palavra, (que não se pode crer) está tudo bem esquisito. O mundo é tão complexo que foge à qualquer tentativa de entendimento.
Quase 2020! É realmente difícil acreditar nisso...

 Não. Não temos carros voadores e nem usamos roupas prateadas, a única coisa que se aproxima dessa ideia de futuro prateado é o trânsito, o que eu lamento profundamente, era tudo tão mais bonito quando predominava o colorido dos Fuscas "azuis calcinha" e amarelinhos.

 Domingo, 08 de dezembro de 2019, um dia depois de completar 32 anos. Estou completamente só em casa, acho que ganhei do universo minha própria companhia:

- Tome um dia inteiro pra ti, veja se é bom estar contigo, faça um balanço do que foram esses 32 anos, ou simplesmente ande nua pela casa e tire cochilos ao logo do dia.

 A verdade é que não preciso de um domingo á sós para fazer um balanço do que foram esses 32 anos, eu faço isso o tempo todo, ao despertar de qualquer som, cheiro ou gosto.
Talvez eu queira pensar sobre o que foi esse último ano, talvez por isso tenha sentado aqui pra acabar esse texto começado nem sei quando...

 Há exato um ano, eu estava no litoral, longe de casa, longe da alegria, perto do mar e a caminho da paz.
Tal como agora, pensava muito em alguém, a frequência que meu pensamento o buscava talvez você a mesma de agora, o conteúdo dos pensamentos é que mudou...

 Há um ano, eu me sentia grata de não te passado pela vida sem a honra de conhecer Jonathan Cavalcante de Oliveira. Esse pensamento cíclico era meu consolo maior por tê-lo perdido.

 Não era apenas uma racionalização pra não sofrer, era um sentimento genuíno e foi isso que me permitiu ficar em paz...

 Um dia desses, no começo do ano, a gente andava de mãos dadas na Berrini...

Eu perguntei a ele:

- Está com saudade de casa?

Ele respondeu:

- Você é minha casa.

Finalmente não vivo um presente no passado ou no futuro. Finalmente o presente me basta, e finalmente sei que o mais importante de tudo, é se sentir em casa.

" TU, QUE TEM ESSE ABRAÇO CASA, SE DECIDIR BATER ASA, ME LEVA CONTIGO... "

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